terça-feira, 24 de março de 2009

O efeito outono

SÉRGIO DA COSTA RAMOS [Diário Catarinense]

Outono de céu imaculado, o vivente descobre que faz melhor negócio deixando de prestar atenção nas impurezas da política, em troca de um olho fixo nas maravilhas da natureza em redor.

As montanhas estão desenhadas contra o horizonte, as nervuras à mostra, como se estivessem nuas, usando, no máximo, as calcinhas verdes da mata atlântica.

Do alto do Morro da Lagoa, o sol nascente é de um esplendor soberano, vindo lá da mãe África. O frio ainda demora. Por enquanto o outono se faz anunciar apenas pelo azul profundo, que se instala no firmamento. De onde o olho de Deus aprecia, em êxtase, a sua própria obra.

Na Barra da Lagoa, nos Ingleses e na Armação, nas antigas “guaritas de colônias pesqueiras”, os olheiros estão a postos, a pele curtida do sol, uma guimba de palheiro pendendo no canto da boca, o boné de propaganda eleitoral na cabeça grisalha, um sorriso 1001 desfraldado com os dentes “só de presas”…

Devemos fazer de conta de que não há “aquecimento das calotas antárticas” e que as tainhas desembarcadas no Mercado virão da rede dos nossos Manés – e não dos caminhões frigorificados. Digamos que, de repente, o mar azul se encrespe, fique todo enrugado, os cardumes deixando seu rastro festivo no espelho d’água. Seria a hora de soar o alarme:

– Tainha! – berrará o olheiro, senha para que as velhas rendeiras afiem as suas facas de escamar e os pescadores acendam o fogo para a escala de suas presas – “tainha fresca, tainha de corso, tainha ovada, ô, sinhora!”

Entra-se a descer o morro – descreve Várzea – por onde “a estrada coleia num leito de barro vermelho, pedregoso e cortado de córregos murmurantes e cristalinos, até quase o fim da encosta, onde se deita a sede da freguesia, banhada em beleza.

Feriadão é bom para esse “não fazer nada”, ficar só olhando a paisagem. As dunas, por exemplo. São paisagens naturais, assinadas pelo Supremo Pintor. Aqueles montes mutantes nasceram, como diria Raul Seixas, “há mais de 10 mil anos atrás”. São aquarelas pintadas pelas correntes dos rios, das lagoas, dos mares, pela força eólia dos ventos.

Movediças, elas estão nuas – ou vestidas apenas com uma vegetação rasteira, assemelhando-se a colossais cones de farinha de trigo. As dunas se espreguiçam, as donas também. Peça, caro leitor, mais uma “loura”, espreguice os lábios, estimule a mente.

E dê de beber ao seu coração, que jaz afogado na beleza da paisagem. Lance o seu “Salut!” a Floripa, velhinha sensual. E diga “Amén”, agradecido por estar vivo..

Um comentário: