O homem é estrada e paisagem,
quanto mais anda
mais próxima é a chamada
que Deus secretamente
põe em nosso corpo”
Luiz de Miranda
Dia haverá
que sem chaves ou porta
trilha ou caminho
terás que ir além
do horizonte monótono
do dia e da noite
tendo como pão para a viagem
somente as pétalas cinzentas
da solidão!
Dia haverá
que sem aviso ou sinal
sem lume ou lamparina
terás de passar
para além do muro
obscuro
do tempo
carregando apenas contigo
os grãos de luz
e as sementes de cristal
da seara longa ou curta
da soma de teus dias.
Dia haverá
que serás deserto caminho
adormecida imagem
e nem sequer
terás pela frente
o risco branco de uma seta
ou vulto de baliza
além de ti
e de tua viagem
que ninguém sabe
se dará para o norte
ou para o sul
para a noite escura
ou para o dia!
Dia haverá
que sem estrela-guia
ou pastor de estradas
terás que seguir tua caminhada
contando apenas
com o som ritmado
de teus passos
ecoando friamente
nas paredes do templo
da mais pura solidão!
E dia haverá
que tuas mãos
terão a escolha sem escolha
de destravar pela última vez
o ferrolho misterioso
da porta do tempo!
Dia haverá
que o olho escuro da noite
injetará em tuas veias
sombras frias e venenosas
e então
deitarás para sempre
ao som de cantos muito tristes
e ao peso de muitas flores!
Na vetusta parede dos dias
o velho relógio mastiga o tempo
mas o que é que marca
as horas da eternidade?
Dia haverá
que teu caminho será sem caminho
tua viagem sem rótulo e sem nome
e aos olhos de todos os espantados com tua AUSÊNCIA
restará escrito
bem em negrito
no chão das tábuas da vida
que um dia
nunca mais haverá dia!
Daniel Paese
sem dúvida um dos melhores poemas que já li por aí.
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